(escrito em maio de 2008)
Desde que nascemos, aprender é intuitivo e contínuo. Andamos, falamos, brincamos, fazemos amigos e inimigos, vamos para a escola, subimos os degraus da vida, sociedade, trabalhamos, negamos nosso passado, construímos ou destruímos um sonho, descobrimos que está tudo errado e caminhamos para a morte ou pro recomeço com uma segurança proporcional a quanto descobrimos e aprendemos. Tudo de acordo com o tempo que nossa consciência leva para perceber, assimilar e propor novos desafios.
O tempo é a chave. É quem determina a relatividade da vida e a grandeza do ser humano. É o que iguala todos, no final das contas. Se todos procuramos a verdade, o tempo acaba sendo igual para todos os que a encontram, porque dentro dessa medida está inserida a quantidade de experiências que somos obrigados a suportar para aprender o que no final é uma coisa só.
Nessa caminhada, nesse suplício para muitos, passamos por momentos grandiosos, de muita alegria e felicidade provocada pela sensação de estar aprendendo e evoluindo. Mas grandiosos, as vezes também são pela raiva que nossos erros provocam em nós e nos outros e pelos outros. Algumas vezes tudo ao mesmo tempo.
Nesse momento da minha vida é oque eu sinto. Quando me perguntam porque tanta tristeza e tanta angústia, a resposta é essa: estou com raiva!
A ordem dos motivos não importa, a sensação é de que é muita coisa. Toda hora escapa algo. Por mais que corra tudo corre mais. É bom estar melhor mas é preciso estar bom
Pela quantidade de vezes que me sinto melhor por pensar, sentir e perceber mais e claramente a respeito da vida e das pessoas e com isso, automaticamente, a vida propor charadas mais sofisticadas e armadilhas mais difíceis de ultrapassar. O exercício da tolerância vai se tornando, a cada passo, mais fundamental e mais intolerável, para conviver com as novas descobertas e sustentar a relação com as pessoas.
A partir do momento que descubro que o caminho é simples, mas cheio de desvios, as coisas ficam mais fáceis de ser enxergadas.
Por isso descubro que a tolerância é imprescindível para conviver, que a humildade está em ver as coisas como elas são. Em procurar harmonia no que é o lado bom e ponto. Que é possível viver assim e sofrer menos com as surpresas que os outros sempre nos reservam. Que quando isso se torna impossível o certo é o afastamento e descobrir outras possibilidades e continuar e continuar.
Mas acabo estabelecendo relações que ganham tamanho e apelido, e quanto mais importantes mais dolorosas em algum momento. E mais difíceis de descartar.
E saber que tem que ser assim é o motivo segundo da raiva. Troca é o que se espera de qualquer relação, fraternal, amorosa, comercial, não importa. Essa troca se dá em qualquer nível e em qualquer tempo. Mas sempre acontece. Quando pára a troca: turbulências, raiva, sofrimento e o pior, a pior sensação, a de burrice e insignificância.
Nada pior do que ser descartável. Por pior que nos sintamos, sendo importante para alguém nosso ego se vira. É fácil nos enganarmos porque queremos ser enganados, porque queremos manter uma situação confortável que afasta o medo e a solidão. É fácil perdoar e não enxergar o óbvio. Fazemos qualquer coisa para nos sentirmos úteis e necessários.
Mas nem sempre somos.
E somos os últimos a saber. E é muito doloroso enxergar. O vazio existe e é enorme, principalmente quando descobrimos que antes de sermos enganados, nos enganamos, nos iludimos em nome de coisas que fazemos questão de complicar só para não ter que assumir que a fila anda e que o próximo é o seguinte para nós e para os outros.
E dá medo.
E o medo faz com que o tempo pare. Parece que quanto maior a consciência disso, maior o tempo para tomar consciência das mudanças a nossa volta e reagir e fazer com que a fila ande. E vem daí mais raiva.
E a soma das raivas que vão surgindo na mesma rapidez com que percebo meus erros de postura vai me paralisando e me deixando perdido.
É essa a hora de se atirar de cabeça, de novo, na vida ou se trancar na certeza do sofrimento e morrer na ignorância?
Minha escolha é me atirar, é seguir em frente. É não olhar para trás pelo motivo errado. O que aconteceu está acontecido, tem sua importância, mas a fila anda. E com ela eu também. Está na hora de viver oque há de melhor na vida, a certeza que nascemos para sermos felizes, por mais que seja difícil alcançar a felicidade. Que as dificuldades nós mesmos criamos e nos prendemos a elas.
Que a chave é olhar com simplicidade, humildade e tolerância para a vida e viver.
E sonhar e querer o melhor para nós e para todos. E continuar aprendendo.
Sem raiva.
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